REFLEXOS PERDIDOS
Olhei-me no espelho — névoa e engano,
vestígio difuso de um tempo insano.
Rosto sem traço, moldura partida,
navio sem rumo na vida perdida.
Quem sou no silêncio que tudo domina,
na falsa promessa que o dia ilumina?
Se o tempo é passagem, reflexo, ilusão,
sou brisa que dança sem direção.
Nos fardos que pesam, sou ré sem defesa,
nos dias incertos, sou alma indefesa.
Na dor ou no riso, sou sombra fugaz,
um traço no vento que vem e que jaz.
Vento que sopra, me leva ao acaso,
me enche de dúvidas, me deixa no raso.
Invade minha alma, me arrasta em tormento,
desfaz meus sonhos ao toque do tempo.
Anoitece lá fora, e dentro de mim,
sou tudo, sou nada, começo e fim.
O alento se perde na estrada apagada,
sou pó dissolvido na brisa calada.
Relâmpago é a vida, um breve clarão,
brilha no céu e apaga no chão.
Refletir o abismo, tocar o infinito,
ser só um instante no tempo finito.
Se tudo é passagem, se o tempo é engano,
se a vida é um ciclo tão breve e humano,
resta-me a brisa, o rastro, o momento,
ser voz no silêncio, ser luz no vento.
Tatiana Pereira Tonet
Enviado por Tatiana Pereira Tonet em 18/03/2025
Alterado em 18/03/2025